Do lar aos tatames, uma realização em família

Não é novidade. Antes de ser um esporte com seus momentos emocionantes e em disputas de alto rendimento, o judô é uma filosofia de vida. Um judoca, muito antes de almejar uma medalha – qualquer medalha –, aprende primeiro a cair. E a levantar, para cair de novo. E depois levantar novamente, num processo cercado de aprendizado, respeito e confiança.

Esse processo, conduzido por um alguém que chamamos de mestre, sensei, é acompanhado por colegas que não raro se tornam amigos ao longo da trajetória da vida. Mas também, muitas vezes, pode ser acompanhado por nossa família. São comuns os casos de se verem irmãos e primos dividindo os tatames, avançando, faixa a faixa, na modalidade. Algo comum e salutar.

Neste ano, além de irmãos, a Federação Gaúcha de Judô formará, dentre seus novos faixas pretas, uma dupla formada por mãe e filho, Gabriella e Pietro Pellizer. Ambos do GN União, que começaram no judô em momentos diferentes de sua vida, mas que comungam amor semelhante pelo esporte. Os dois receberão a nova graduação no próximo sábado, durante o Bonenkai 2025.

Para os Pelizer, o judô é coisa de família. Está no sangue. Gabriella e Pietro vão completar o quadro de faixas pretas do clã. Agora são quatro, somados a Laerte e Gabriel. Para o próximo Natal, a foto dos quatro com a faixa preta na cintura já será providenciada.  

Gabriella e Pietro vestiram quimono pela primeira vez em momentos diferentes da vida. Para ele foi algo natural, seguindo o exemplo do pai e do irmão mais velho. Aos três anos já tinha iniciado, no clube Recreio da Juventude, em Caxias do Sul, onde a família morava. 

Naquela época, o pequeno Pietro se ambientava naturalmente e, desde cedo, mostrava disposição para saltos maiores. Foi algo incentivado pela família e hoje se reflete, também, em resultados – Pietro integra a Seleção Gaúcha sub-18 e já participou de três competições internacionais. Se hoje o sonho é grande, lá no começo, era determinação e expectativa. 

“A gente começou no Recreio e depois o Pietro veio para a Sogipa. Ele foi primeiro numas férias, mas não saiu mais. Por um ano, a gente ficou levando e trazendo de Caxias para treinar na Sogipa. Pegava ele no colégio, almoçava no carro e ia treinar”, conta a mãe. “É o amor pelo judô.”

Não tardou para Gabriella também se apaixonar pelo esporte. Porém, a entrada no judô foi algo mais disruptivo. Enlaçou a faixa branca na cintura quando tinha 45 anos, uma década atrás, depois de um estalo: “Eu só assistia, né? E aí, um belo dia eu falei: ‘Ah, gente, eu vou entrar nisso aí também’. Eu vou começar a me inteirar disso tudo, vou começar a fazer. E aí eu me joguei”. Não foi um processo fácil: “Tem que reaprender muito, porque o já está todo duro. Tem que reaprender até a dar cambalhota”, sorri ela. “É uma questão de perseverança mesmo.”

Mãe e filho têm a mesma graduação desde a faixa amarela. Desde então, é uma trajetória de companheirismo também dentro dos tatames, o que rende diversas histórias. “Teve um Metropolitano em Caxias que toda a família lutou”, recorda Pietro, enquanto Gabriella procura no seu celular uma foto que considera marcante, em um recorte de ambos atuando como árbitros em áreas de lutas vizinhas. É uma imagem entre centenas em competições, eventos e exames realizados pela FGJ. 

Em 2024, quando os dois já estavam na faixa marrom, houve a decisão de prestarem o exame juntos, mesmo que atrasasse um ano no prazo de Gabriella. “Eu falei: ‘Pi, vamos para o exame? Ele disse: vamos!’ Então vamos estudar”, revela a matriarca. O apoio da família foi unânime. “São renúncias que a gente fez. Agora é a realização de um momento especial em família.”

O esforço em conjunto não apenas deu certo, mas com louvor: Pietro alcançou a maior nota do exame de waza. E Gabriella não ficou distante – e até poderia ser melhor, segundo ela. “Foi boa, mas não vou pedir para repetir”, narrou, lembrando do nervosismo do dia. Dia, aliás, marcado por quem assistiu de fora na hora do Kata, em que ambos formaram a dupla. “ A sintonia mãe e filho, vocês apresentando foi um catarse.”

Após ver a mãe descrever a cena, Pietro complementa sobre a importância do esporte: “O judô é praticamente a minha vida. Tudo é voltando para esse esporte, focado nele. É das coisas mais importantes da vida”. E será que é genético? “Acho que sim”, respondeu Gabriella. “Eu vim do balé, mas me rendi”, revelou. “Hoje estou feliz, é uma baita superação”, complementou, às vésperas de receber a faixa preta.  

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